Ao lado da Ordem DeMolay, voltada a rapazes, existe no Brasil uma organização juvenil feminina ligada ao universo maçônico: a Ordem Internacional das Filhas de Jó (IOJD, na sigla em inglês). Ela reúne meninas e jovens mulheres em torno de valores como fé, amizade, respeito à família e serviço ao próximo — sem ser, ela mesma, uma Loja maçônica. Entenda o que é, como surgiu, quem pode participar e qual é a relação exata com a Maçonaria.

O que é a Ordem das Filhas de Jó

As Filhas de Jó são uma ordem paramaçônica juvenil feminina: uma organização que se inspira nos princípios da Maçonaria, é patrocinada por maçons e maçonarias familiares, mas tem estrutura, rituais e direção próprios. Suas reuniões acontecem em grupos locais chamados Bethel, geralmente sediados em templos maçônicos cedidos pela Loja patrocinadora.

O nome vem do Livro de Jó, no Antigo Testamento, e da passagem que menciona as três filhas de Jó, descritas como as mulheres mais belas da terra e que receberam herança junto com seus irmãos — uma referência à dignidade e à igualdade de valor entre as jovens.

Bíblia aberta sobre púlpito de madeira com lírios brancos e fita roxa

Origem e chegada ao Brasil

A ordem foi fundada em 1920, em Omaha, no estado americano de Nebraska, por Ethel T. Wead Mick, esposa de um maçom. A proposta era criar um espaço de formação moral e social para as filhas, netas e parentes de maçons, com um ritual próprio inspirado na narrativa bíblica de Jó.

No Brasil, a ordem se instalou a partir da segunda metade do século XX e hoje mantém Bethéis em diversos estados, sob a coordenação de uma estrutura nacional. Ela convive com outras organizações do que se costuma chamar de "família maçônica": a Ordem da Estrela do Oriente, para adultos de ambos os sexos, e a Ordem DeMolay, para rapazes.

Quem pode participar

CritérioO que a ordem costuma exigir
IdadeEm geral entre 10 e 20 anos, com variações conforme a jurisdição
SexoFeminino
VínculoParentesco com maçom (filha, neta, irmã, sobrinha) ou indicação/patrocínio, conforme a regra local
CrençaCrença em um Ser Supremo, sem exigência de religião específica
CondutaBom comportamento social e escolar, com autorização dos responsáveis

Vale destacar que a exigência de crença é a mesma que a Maçonaria faz aos seus candidatos, tema que detalhamos em Maçonaria e religião: não se pede filiação a uma igreja, mas a admissão de um princípio criador — o que na Maçonaria se chama Grande Arquiteto do Universo.

Como funciona um Bethel

Cada Bethel é conduzido pelas próprias jovens, que ocupam cargos ritualísticos e administrativos por mandatos curtos — a Honrada Rainha é a principal autoridade, auxiliada por princesas, guias, capelã, tesoureira e outras oficiais. A lógica lembra a distribuição de funções descrita em cargos maçônicos: cada jovem aprende a liderar, falar em público e cumprir um papel dentro de uma cerimônia.

Adultos participam como conselheiros e responsáveis (o Conselho Diretor de Bethel), mas não conduzem as sessões. As atividades combinam:

  1. Sessões ritualísticas — cerimônias de abertura, iniciação de novas integrantes e instalação de oficiais;
  2. Ação social — campanhas de doação, visitas e apoio a instituições, com destaque histórico para causas ligadas à saúde;
  3. Convívio e formação — encontros, viagens, competições entre Bethéis e treinamento de oratória e liderança.
Jovens em trajes formais organizando caixas de doação em um salão comunitário

As Filhas de Jó fazem parte da Maçonaria?

Não no sentido estrito. Uma integrante das Filhas de Jó não é iniciada maçom e não frequenta as sessões de uma Loja. A ordem é paramaçônica: nasce do ambiente maçônico, adota princípios semelhantes e é patrocinada por maçons, mas tem administração própria e não integra a estrutura de uma obediência maçônica.

Essa distinção é importante para responder a uma dúvida comum: participar de um Bethel não é o caminho para se tornar maçom. Mulheres que desejam a iniciação maçônica propriamente dita recorrem a obediências mistas ou exclusivamente femininas, assunto tratado em Maçonaria feminina — e que envolve o debate sobre regularidade e reconhecimento.

Três equívocos frequentes

  • "É uma seita religiosa." Não é. Há referências bíblicas no ritual, como há na Maçonaria, mas não existe culto, doutrina ou clero; jovens de diferentes religiões participam.
  • "Só entra quem é filha de maçom." O parentesco é a via mais comum, mas várias jurisdições admitem jovens indicadas por integrantes ou pela Loja patrocinadora.
  • "É apenas um clube social." O componente de convívio existe, mas a ordem se organiza em torno de ritual, cargos, obrigações e projetos de serviço comunitário.

Como encontrar um Bethel

O caminho prático é procurar uma Loja maçônica da cidade e perguntar pelo Bethel patrocinado ou pelo Conselho Diretor local — o mesmo tipo de contato descrito em como entrar na Maçonaria no Brasil. Como a estrutura é jurisdicional, as regras de idade, mensalidade e uniforme podem variar de estado para estado, e devem ser confirmadas diretamente com o Bethel.

Conhecer as Filhas de Jó ajuda a entender que a Maçonaria não é um bloco isolado: em torno dela existe uma rede de organizações familiares e juvenis, cada uma com finalidade própria, que compartilham a mesma base de valores — fraternidade, estudo e serviço.

Veja também: Ordem do Arco-Íris para Meninas, a outra ordem juvenil feminina ligada à Maçonaria.