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QUANDO O TEMPO SE SENTOU À MESA
_29/11/2026 – Por: Antonio Carlos Pereira Gomes – Grande Secretário de Imprensa e Comunicação_
A noite de 29 de julho não se mediu em horas, mas em gerações. Duzentos e quarenta Irmãos ocuparam o mesmo salão, e por um instante o Grande Oriente de São Paulo deixou de ser uma data em livro de atas para se tornar carne, voz, taça erguida. Cento e cinco anos não cabem numa noite — mas naquela noite, todos couberam neles.
Há algo de estranho e belo em uma instituição centenária. Ela é, ao mesmo tempo, muito antiga e muito jovem: antiga porque atravessou o século carregando símbolos que o tempo não desgasta; jovem porque a cada novo Irmão que se senta à mesa, recomeça. O Jantar Ritualístico não celebrou apenas um número — celebrou essa contradição que sustenta toda tradição viva: permanecer sendo a mesma coisa, sempre outra.
Nas mesas, o protocolo cedia espaço ao reencontro. Um Irmão de uma Região reconhecia, do outro lado do salão, o rosto de outro que não via desde uma Sessão distante. Entre um brinde e outro, as Lojas — que no dia a dia são números, siglas, endereços — voltavam a ser o que sempre foram: pessoas que escolheram, um dia, acreditar que se pode construir algo em conjunto que nenhum deles construiria sozinho.
Porque é isso, afinal, o que sustenta cento e cinco anos: trabalho. Não o trabalho que se mede em horas ou resultados, mas aquele outro — o que se faz em silêncio, Sessão após Sessão, sem plateia e sem pressa, na certeza de que o esforço de hoje só dará fruto para quem virá depois. Cada Loja é, nesse sentido, uma oficina de tempo: nela se lavra o caráter como se lavra a pedra, golpe a golpe, geração a geração, sem que o obreiro chegue a ver a obra pronta. O Grande Oriente de São Paulo não é feito de cento e cinco anos somados — é feito de milhares de noites de trabalho semelhantes a essa, repetidas até virarem história.
Cento e cinco anos é tempo suficiente para enterrar impérios. É tempo suficiente, também, para uma ideia simples — a de que homens podem se encontrar em torno de princípios e não de interesses — provar que resiste. Enquanto cidades inteiras se reinventam a cada década, o Grande Oriente de São Paulo manteve acesa, geração após geração, a mesma chama que herdou: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Não como palavras de parede, mas como hábito repetido até virar caráter.
E talvez seja aí que resida o verdadeiro significado da palavra Irmão — não no parentesco de sangue, mas no compromisso silencioso de sustentar, junto a outros, algo maior e mais duradouro do que qualquer um deles sozinho. Nenhuma Loja se ergue com uma só coluna. Nenhuma tradição atravessa um século carregada por um único par de mãos. O que se comemorou naquela noite, mais do que uma data, foi essa rede invisível de mãos que se revezaram ao longo de cento e cinco anos para que a chama chegasse acesa até hoje.
Talvez seja esse o verdadeiro trabalho de uma Potência centenária: não apenas durar, mas ensinar a durar. Cada novo Irmão que atravessa a porta da sede recebe, sem saber, um pouco do peso e da leveza de cento e cinco anos — o peso de tudo que precisou ser preservado, a leveza de saber que não precisa carregar isso sozinho.
Porque houve, sim, solenidade — mas houve, acima de tudo, alegria. Uma alegria simples, quase infantil, a que só existe entre quem se reconhece como igual, como Irmão. Taças que se erguiam sem cerimônia, risadas que atravessavam mesas vizinhas, olhos que brilhavam ao reencontrar um rosto querido depois de meses. Não era a alegria contida dos protocolos — era a alegria solta de quem, por uma noite, pôde simplesmente estar junto, celebrar junto, brindar à sorte de pertencer a algo maior. Em cento e cinco anos de história, talvez essa tenha sido a maior prova de que a Instituição está viva: não nos discursos, mas no riso fácil que tomou conta do salão, na felicidade genuína estampada em cada mesa.
Quando as luzes do salão finalmente baixaram, o que ficou não foi o jantar. Foi a lembrança de que uma Instituição só é verdadeiramente antiga quando ainda é capaz de reunir, numa mesma noite, quem já construiu sua história e quem ainda vai escrevê-la — e de que cada Loja, em qualquer canto do Estado, segue sendo o lugar onde esse trabalho silencioso continua, mesmo quando ninguém está olhando.
O Grande Oriente de São Paulo soprou, em silêncio, cento e cinco velas. E, como toda chama que se preza, não se apagou — passou adiante, de mão em mão, de Irmão em Irmão, de Loja em Loja. Hoje, são o Sereníssimo Grão-Mestre Renato José Garcia de Almeida e o Eminente Grão-Mestre Adjunto Bento Oliveira Silva quem a seguram à frente da fila — não como donos da chama, mas como mais dois elos, os elos da vez, num cordão que começou muito antes deles e seguirá muito depois.
Parabéns 105 anos de GOSP !
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Conteúdo publicado originalmente por GOSP — Grande Oriente de São Paulo — ver publicação original.
