Quase tudo o que uma Loja brasileira faz hoje — a ordem dos oficiais, a existência do Arco Real, a fórmula da regularidade — nasceu de uma briga inglesa do século XVIII entre duas Grandes Lojas rivais: os Modernos (Moderns) e os Antigos (Antients). O episódio é bem documentado em fontes de língua inglesa e quase ausente do material em português. Este artigo traduz e organiza essa história da Maçonaria Antigos Modernos, desvendando como essa rivalidade fundamental moldou a Maçonaria global. É crucial entender que a influência dessa disputa não se limitou à Inglaterra, mas se espalhou pelas colônias e, eventualmente, chegou ao Brasil, definindo muitos dos parâmetros que consideramos tradicionais hoje.

1717: a Grande Loja de Londres e os "Modernos"
Em 1717, quatro Lojas londrinas que se reuniam em tavernas decidiram formar uma Grande Loja — o marco que costuma ser apontado como o nascimento da Maçonaria especulativa organizada. Foi dessa estrutura que saíram as Constituições de Anderson, de 1723, o primeiro código escrito da Ordem. Este documento revolucionário estabeleceu as bases para a maçonaria moderna, definindo princípios de regularidade e conduta que seriam adotados globalmente.
Nas décadas seguintes, essa Grande Loja fez mudanças no ritual para dificultar a entrada de impostores em Lojas, entre elas a inversão de certas palavras de reconhecimento. Essas alterações, vistas como inovações por alguns, foram criticadas por outros, que as consideravam desvios da prática original. Foram justamente essas alterações que dariam origem ao apelido pejorativo de "Modernos", cunhado por seus oponentes, sugerindo que haviam se afastado das antigas tradições maçônicas. Apesar das críticas, a Grande Loja de 1717 prosperou, expandindo-se rapidamente pela Inglaterra e além.
1751: a Grande Loja dos Antigos e o *Ahiman Rezon*

Em 17 de julho de 1751, maçons em boa parte de origem irlandesa reunidos em Londres fundaram uma segunda Grande Loja. Eles se apresentavam como guardiões da prática original e chamavam a si mesmos de Antigos, acusando a Grande Loja de 1717 de ter inovado — daí terem batizado os rivais de "Modernos", em pleno tom de crítica. A criação desta nova Grande Loja marcou a formalização da divisão e o início de uma rivalidade que teria consequências duradouras para toda a Maçonaria.
O grande articulador do grupo foi Laurence Dermott, secretário e depois Grão-Mestre Adjunto, autor do livro de constituições Ahiman Rezon (1756), que rivalizou com o texto de Anderson. O Ahiman Rezon defendia o retorno aos que consideravam os "antigos limites" da Maçonaria, consolidando a identidade e as práticas dos Antigos. As diferenças entre os Antigos e Modernos se manifestavam em diversos aspectos rituais e administrativos, acentuando a polarização.
As diferenças mais citadas pelas fontes inglesas:
| Tema | Modernos (1717) | Antigos (1751) |
|---|---|---|
| Arco Real | Tratado como acessório | Considerado parte essencial da Maçonaria |
| Palavras de reconhecimento | Alteradas | Mantidas na forma anterior |
| Diáconos | Ausentes por muito tempo | Presentes como oficiais regulares |
| Orações e paramentos | Uso mais discreto | Uso mais elaborado |
| Instalação do Venerável | Cerimônia simplificada | Cerimônia própria e reservada |
A Profundidade da Disputa: Impacto na Regularidade e Expansão
Não era briga de detalhe. Como as duas obediências usavam senhas e sinais diferentes, um maçom de um lado podia ser barrado como intruso do outro — o mesmo problema que o Cobridor enfrenta ao examinar visitantes. Na prática, existiam duas Maçonarias inglesas incompatíveis, cada uma emitindo cartas constitutivas para Lojas na Europa, nas colônias americanas e no restante do império. Esta incompatibilidade gerou confusão e dificultou o reconhecimento mútuo entre maçons de diferentes origens, criando a necessidade de clareza nas práticas e rituais.
Boa parte das Lojas militares britânicas seguia os Antigos, e foi por esse canal que o rito viajou pelo mundo — inclusive para a América, onde a divisão se reproduziu antes da independência dos Estados Unidos. A presença militar foi um vetor importante para a disseminação das práticas dos Antigos, garantindo que sua influência se estendesse para muito além das fronteiras inglesas. Essa expansão global da Maçonaria Antigos Modernos estabeleceu as bases para a diversidade ritualística que observamos hoje, mas também para a eventual necessidade de unificação.
1813: A União e a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE)

Depois de negociações conduzidas por dois irmãos do rei — o Duque de Sussex, pelos Modernos, e o Duque de Kent, pelos Antigos — as duas obediências assinaram, em 27 de dezembro de 1813, o Ato de União, criando a United Grand Lodge of England (UGLE), a Grande Loja Unida da Inglaterra. Este ato foi um marco histórico, encerrando décadas de rivalidade e pavimentando o caminho para uma Maçonaria mais coesa e universal. A união não foi apenas um acordo político, mas uma fusão de tradições e rituais, buscando preservar o melhor de ambas as vertentes.
O texto do acordo trouxe a fórmula mais citada da Maçonaria mundial: a Maçonaria pura e antiga consiste em três graus e nenhum mais — Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom —, incluindo a Ordem do Santo Arco Real. Foi a solução diplomática que acomodou a exigência dos Antigos sem criar um quarto grau, garantindo a integridade do sistema de graus simbólicos enquanto reconhecia a importância do Arco Real. Essa formulação se tornou um pilar para a regularidade maçônica em todo o mundo.
Da União saíram também:
- a padronização do ritual, trabalho da chamada Loja de Reconciliação (1813-1816), que deu origem às formas praticadas até hoje na Inglaterra; este processo foi meticuloso, visando harmonizar as diversas práticas rituais;.
- a reintrodução dos Diáconos como oficiais regulares, presentes em praticamente todas as Lojas brasileiras, ressaltando sua função essencial na comunicação e na organização do trabalho;
- a cerimônia própria de instalação do Venerável Mestre, conferindo solenidade e importância à liderança da Loja;
- os critérios que até hoje definem a Maçonaria regular e irregular, estabelecendo padrões para o reconhecimento mútuo entre as Grandes Lojas globais.
O que isso tem a ver com o Brasil: As Heranças da União
A Maçonaria brasileira não descende diretamente da UGLE — nossas primeiras Lojas vieram sobretudo de influência francesa e portuguesa, como conta a história da Maçonaria no Brasil. No entanto, a repercussão da Maçonaria Antigos Modernos e o posterior Ato de União de 1813 tiveram um impacto indireto, mas significativo, na estrutura e nas práticas maçônicas em nosso país. Embora não haja uma linhagem direta, a unificação inglesa estabeleceu um precedente e um modelo de organização que influenciou as potências maçônicas de onde o Brasil eventualmente recebeu sua luz.
Três heranças da União, em particular, chegaram até aqui:
- O quadro de oficiais. Diáconos, Mestres de Cerimônias e a lógica de instalação anual seguem o desenho consolidado em 1813. A organização interna das Lojas brasileiras reflete essa padronização, garantindo uma estrutura hierárquica e funcional que é amplamente reconhecível internacionalmente.
- O Arco Real. A permanência do grau no acordo garantiu sua sobrevivência e sua transmissão pelo Rito de York, praticado no Brasil. O Arco Real é considerado um complemento vital para o Mestre Maçom, aprofundando o conhecimento e a experiência maçônica.
- A régua da regularidade. Quando uma obediência brasileira discute reconhecimento internacional, o parâmetro citado continua sendo o conjunto de princípios firmado pela UGLE — tema que também aparece na leitura dos landmarks maçônicos. A UGLE tornou-se um referencial para a regularidade maçônica global, e seus princípios são frequentemente consultados e adotados por outras Grandes Lojas.
Um detalhe curioso de vocabulário
O apelido "Modernos" ficou colado na Grande Loja mais antiga, e "Antigos" na mais nova. É uma inversão que confunde até hoje quem lê textos ingleses: quando um autor fala em Antients working, está falando da tradição inaugurada em 1751 — e não da Maçonaria operativa medieval. Este ponto é crucial para evitar mal-entendidos históricos ao pesquisar sobre a Maçonaria Antigos Modernos e sua evolução. É um lembrete de que os nomes nem sempre refletem a cronologia, mas sim a perspectiva dos grupos em questão na época da sua formação.