Antes das Constituições de Anderson, antes da Grande Loja de Londres, e antes mesmo do surgimento das lojas especulativas, um poema em inglês médio já era preservado na Biblioteca Real britânica. Este é o célebre Manuscrito Regius, reconhecido como o documento maçônico mais antigo que se tem conhecimento. Ele serve como a base documental para grande parte da história e dos princípios que fundamentam a Maçonaria contemporânea.
Os estudos aprofundados sobre este texto essencial são predominantemente encontrados em língua inglesa. O presente artigo visa condensar e organizar as informações mais relevantes, tornando-as acessíveis ao público lusófono interessado na história maçônica.
O que é o Manuscrito Regius
O Manuscrito Regius — também conhecido como Poema Halliwell — é um texto composto por aproximadamente 794 versos rimados, cuja datação o situa por volta do ano 1390. A denominação "Regius" (do latim "real") advém de sua antiga pertença à coleção real inglesa, enquanto o segundo nome, "Halliwell", homenageia James Orchard Halliwell. Foi Halliwell quem, em 1840, identificou o conteúdo do poema como pertinente aos pedreiros medievais e, posteriormente, publicou-o, trazendo-o ao conhecimento de um público mais amplo e iniciando seu estudo sistemático.
Este poema narra uma história lendária que traça as origens e a evolução da geometria e da arte da construção. Atribui a Euclides um papel fundamental na difusão dessas artes no Egito, e descreve a chegada e o florescimento da arte de construir na Inglaterra durante o reinado de Ethelstan. Após essa introdução histórica e mítica, o Manuscrito Regius enumera quinze artigos e quinze pontos de conduta, estabelecendo diretrizes éticas e profissionais tanto para mestres quanto para aprendizes da época. Estes "Antigos Deveres" representam um valioso vislumbre das normas e valores que regiam as guildas de pedreiros da Idade Média.

O que são os Old Charges
O Manuscrito Regius não é um documento isolado. Ele faz parte de uma vasta família de mais de cem manuscritos, redigidos entre o final do século XIV e o início do século XVIII, coletivamente denominados Old Charges — cuja tradução para o português pode ser Antigos Deveres ou Antigas Obrigações. Estes documentos constituem um corpo legislativo e moral que delineava as regras e a história lendária das guildas de pedreiros.
Entre os mais referenciados e estudados estão:
| Documento | Data aproximada | Observação |
|---|---|---|
| Manuscrito Regius | c. 1390 | O mais antigo; em verso |
| Manuscrito Cooke | c. 1410 | O mais antigo em prosa; base de Anderson |
| Manuscrito Grand Lodge nº 1 | 1583 | Datado com precisão |
| Manuscrito Dumfries nº 4 | c. 1710 | Traz elementos rituais |
Todos os Old Charges compartilham uma estrutura fundamentalmente similar. Geralmente, iniciam com uma oração ou invocação, seguida por uma narrativa lendária que conta a origem e a evolução do ofício da construção. Esta parte mítica é então sucedida por um conjunto de regras práticas e preceitos morais. Era costume que este documento fosse lido em voz alta para o candidato ao ser admitido na guilda, servindo como seu juramento de compromisso com os princípios e práticas da fraternidade.
O que essas regras diziam
As obrigações contidas nos Antigos Deveres são notavelmente concretas e pragmáticas, refletindo as necessidades e desafios do trabalho de pedreiro da época. Elas abordavam questões como a garantia de salários justos, a proibição de aceitar trabalhos para os quais não se tinha competência, a condenação do roubo intelectual ou material do trabalho de um companheiro, e a exclusão de aprendizes que fossem servos ou fisicamente incapazes de exercer o ofício. Além disso, enfatizavam a importância de manter segredo sobre as discussões e deliberações internas da loja e o dever de socorrer um irmão em necessidade.

É fascinante observar como grande parte do que hoje é praticado simbolicamente na Maçonaria tem suas raízes nessas normas de trabalho medievais. O sistema de aprendizado por etapas, que evoluiu para o sistema de graus da Maçonaria, o dever de discrição que hoje se manifesta nas discussões sobre segredos maçônicos, e as regras de admissão que se tornaram os landmarks têm uma ligação direta e inegável com os preceitos contidos nesses manuscritos antigos.
Do canteiro de obras à loja especulativa
Os Old Charges não eram meros registros estáticos; eles circulavam como um "documento vivo", sendo lidos e relidos nas cerimônias de admissão de novos membros nas guildas de pedreiros. Contudo, com o passar do tempo, as guildas começaram a aceitar membros que não eram pedreiros de ofício – os chamados maçons aceitos ou especulativos. Mesmo com essa mudança na composição dos membros, o texto continuou a ser lido, mas seu sentido e interpretação migraram de uma aplicação estritamente prática e profissional para uma dimensão mais moral e simbólica.

Foi precisamente esse vasto acervo de documentos que James Anderson utilizou como matéria-prima para a elaboração de suas famosas Constituições em 1723. As Constituições de Anderson, que são consideradas o marco fundador da Maçonaria moderna, são, em grande medida, uma reescrita e uma adaptação dos Antigos Deveres. Anderson as transformou em um texto mais elegante, com uma inclinação deísta mais pronunciada e ajustada ao ambiente cultural e intelectual da Londres do século XVIII, consolidando a transição da Maçonaria operativa para a especulativa.
Relevância dos Antigos Deveres e do Manuscrito Regius para a Maçonaria atual
O estudo dos Old Charges e, em particular, do Manuscrito Regius, oferece insights cruciais para a compreensão da Maçonaria contemporânea, impactando diversas dimensões de sua história, rituais e princípios. A importância desses documentos transcende o mero interesse histórico, fornecendo bases sólidas para a reflexão maçônica.
Datando a Maçonaria
Sem a existência e o reconhecimento dos Old Charges, a Maçonaria teria seu início formal datado a partir da fundação da Grande Loja de Londres e Westminster em 1717. No entanto, com a descoberta e o estudo desses documentos, especialmente o Manuscrito Regius de 1390, estabelece-se uma linha documental contínua que remonta a mais de três séculos antes. Este fato é um argumento poderoso em qualquer discussão sobre a origem da Maçonaria e sobre a antiguidade e legitimidade das obediências maçônicas. Eles provam que, embora a estrutura moderna seja de 1717, seus princípios e tradições são muito mais antigos.
Explicando a linguagem ritual
Muitas expressões e fórmulas presentes nos rituais maçônicos brasileiros e de outras partes do mundo podem soar estranhas ou anacrônicas para o maçom moderno. Contudo, frequentemente, essas expressões são traduções diretas ou adaptações de termos e frases medievais inglesas presentes nos Old Charges. Um exemplo clássico é a expressão "so mote it be" (assim seja), que tem uma origem profunda e está presente em textos antigos. Entender essa herança linguística dos Antigos Deveres ajuda a desmistificar e aprofundar a compreensão da riqueza simbólica e histórica dos rituais, revelando sua continuidade com as práticas dos pedreiros medievais.
Fornecendo Critério Histórico
Em um universo tão rico em tradições e costumes como a Maçonaria, é comum que certos ritos ou práticas sejam reivindicados como "imemoriais". Os Antigos Deveres oferecem um critério objetivo para verificar a validade dessas afirmações. Ao comparar um costume ou preceito atual com o que está registrado nesses textos antigos, é possível determinar se ele realmente possui uma raiz histórica profunda ou se é uma adição posterior. Essa capacidade de validação histórica é fundamental para preservar a autenticidade e a integridade dos princípios maçônicos ao longo do tempo, distinguindo o que é genuinamente antigo do que é uma inovação mais recente. O Manuscrito Regius é, assim, uma ferramenta indispensável para o estudioso maçônico sério.