O Rito Adonhiramita é um dos ritos maçônicos praticados no Brasil e um dos menos compreendidos pelo público. Seu nome vem de Adoniram, o superintendente das obras do Templo de Salomão citado no Antigo Testamento — figura que, neste rito, ocupa o lugar central que o Rito Escocês Antigo e Aceito reserva a Hiram Abif.

Este guia explica de onde vem o rito, como ele organiza seus graus, o que o distingue dos demais e onde ele é trabalhado no Brasil.

O que é o Rito Adonhiramita

Rito, na Maçonaria, é o conjunto de rituais, graus, símbolos e formas de trabalho que uma loja adota. Todos os ritos regulares partilham os mesmos três graus simbólicos — Aprendiz, Companheiro e Mestre —, mas mudam a linguagem litúrgica, a disposição do templo, as lendas de referência e os graus superiores.

O Adonhiramita se caracteriza por:

  • centrar sua lenda em Adoniram, e não em Hiram Abif;
  • forte apoio na narrativa bíblica da construção do Templo de Salomão;
  • influência do gosto setecentista por temas egípcios e hermetismo;
  • rituais mais curtos e sóbrios que os do REAA;
  • estrutura de treze graus, bem menor que os 33 do Escocês.
Loja maçônica francesa do século XVIII em sessão, com membros em trajes de época ao redor do altar

Origem: França, 1781

O rito é atribuído ao escritor maçônico francês Louis Guillemain de Saint-Victor, que publicou em 1781 a obra Recueil précieux de la maçonnerie adonhiramite. O texto reunia e reorganizava rituais que circulavam nas lojas francesas da época, num período de grande experimentação: a Maçonaria francesa do fim do século XVIII multiplicava sistemas de altos graus, e vários deles competiam por adesão.

O Adonhiramita nasce, portanto, como uma tentativa de simplificação — um sistema enxuto diante da inflação de graus que marcava aquele momento. Sobre esse pano de fundo histórico, vale ler também as Constituições de Anderson, que fixaram as bases da Maçonaria moderna décadas antes.

Os graus do Rito Adonhiramita

A estrutura tradicional reúne treze graus, distribuídos assim:

FaixaGrausConteúdo
Simbólicos1º a 3º — Aprendiz, Companheiro, MestreBase comum a toda a Maçonaria
Capitulares4º a 7ºDesdobramentos da lenda do Templo
Filosóficos8º a 12ºCavalaria, hermetismo e reflexão moral
Sublime13ºGrau de coroamento do sistema

Os três primeiros graus seguem o percurso descrito em aumento de salário: elevação e exaltação. A partir do quarto, o rito segue caminho próprio.

Adonhiramita, Escocês e Brasileiro: as diferenças

AspectoAdonhiramitaREAARito Brasileiro
OrigemFrança, 1781França/EUA, séc. XVIII-XIXBrasil, século XX
Nº de graus133333
Personagem centralAdoniramHiram AbifHiram Abif
Tom ritualSóbrio e concisoSolene e extensoAdaptado ao contexto brasileiro

Para comparar em profundidade, veja os textos sobre o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Rito de York e o Rito Brasileiro.

Interior de templo maçônico brasileiro com arquitetura colonial e luz tropical

O Adonhiramita no Brasil

O rito chegou ao Brasil ainda no século XIX, no mesmo fluxo de ideias que trouxe a Maçonaria francesa para o país, e hoje é praticado por um número reduzido de lojas, sobretudo vinculadas ao Grande Oriente do Brasil e a Grandes Orientes estaduais. Não é um rito majoritário: a maior parte das lojas brasileiras trabalha no REAA.

Quem procura uma loja adonhiramita geralmente o faz por afinidade com o tom mais direto dos rituais e com o enfoque bíblico. O caminho de ingresso, porém, é o mesmo de qualquer outra loja regular — como explicamos em obediências maçônicas no Brasil.

Por que Adoniram e não Hiram?

Nos textos bíblicos, Adoniram aparece como o encarregado dos trabalhadores enviados por Salomão ao Líbano. Hiram Abif, por sua vez, é o artífice em bronze — e é sobre ele que a Maçonaria construiu sua lenda central, tratada em quem foi Hiram Abif.

Ao eleger Adoniram, o rito desloca o eixo do mito: em vez do artista assassinado, o foco recai sobre o organizador do trabalho, a hierarquia do canteiro de obras e a disciplina coletiva. É uma leitura mais administrativa e menos trágica da mesma construção.

O que o rito não é

Duas confusões são comuns:

  1. Não é uma Maçonaria "egípcia" no sentido dos ritos de Memphis-Misraim, ainda que compartilhe a estética setecentista de temas egípcios.
  2. Não é irregular por ter poucos graus. Regularidade depende do reconhecimento entre potências maçônicas, não da quantidade de graus praticados.

Conclusão

O Rito Adonhiramita é um sistema histórico, enxuto e de forte lastro bíblico, nascido da vontade francesa do século XVIII de organizar o excesso de altos graus. No Brasil, sobrevive como alternativa minoritária e valiosa à hegemonia do Escocês — e é uma boa porta para entender que Maçonaria não é um bloco único, mas um conjunto de tradições rituais convivendo sob os mesmos princípios.