O Rito de Memphis-Mizraim é o rito maçônico mais longo do mundo: em sua forma clássica, chega a 99 graus (em algumas escalas, 97). Nascido da fusão de dois ritos egípcios do século XIX, ele reúne simbolismo hermético, alquímico, gnóstico e pitagórico em uma escala iniciática que vai muito além dos 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Este guia explica o que é o rito, de onde vem, como se organiza, qual é sua situação de regularidade e por que ele desperta tanta curiosidade — inclusive entre quem nunca entrou em uma Loja.
O que é o Rito de Memphis-Mizraim
É um sistema ritualístico maçônico de caráter esotérico e filosófico. Os três primeiros graus (Aprendiz, Companheiro e Mestre) são os mesmos da Maçonaria simbólica universal; a diferença aparece nos graus seguintes, chamados de graus filosóficos e herméticos, que exploram temas como cosmogonia, alquimia espiritual, cabala, neoplatonismo e mistérios do Egito antigo.
Diferente do Rito Escocês Antigo e Aceito, que organiza sua escala em 33 graus, e do Rito de York, de estrutura mais enxuta e bíblica, Memphis-Mizraim propõe uma jornada de estudo contínuo, na qual muitos graus são conferidos "por comunicação" — isto é, apresentados de forma resumida, sem encenação ritual completa.

Duas origens: Mizraim e Memphis
O rito atual é fruto da união de dois sistemas distintos.
- Rito de Mizraim (Mizraim é o nome hebraico do Egito): estruturado na Itália no início do século XIX e levado à França por volta de 1814 pelos irmãos Bédarride. Tinha 90 graus.
- Rito de Memphis: organizado em 1838 por Jacques-Étienne Marconis de Nègre, na França, com forte carga egípcia e hermética. Chegou a ter 95 graus.
No fim do século XIX, o italiano Giuseppe Garibaldi — figura reconhecida em ambos os sistemas — é apontado pela tradição como articulador da fusão. Em 1881, os dois ritos passaram a ser administrados de forma unificada, dando origem ao Antigo e Primitivo Rito de Memphis-Mizraim, com a escala de 99 graus que se tornou sua marca.
Como se organiza a escala de graus
A numeração impressiona, mas a lógica é mais simples do que parece: o rito agrupa os graus em faixas, cada uma com um foco.
| Faixa | Natureza | O que trabalha |
|---|---|---|
| 1º ao 3º | Simbólica | Aprendiz, Companheiro e Mestre — base comum a toda a Maçonaria |
| 4º ao 33º | Filosófica | Graus em grande parte equivalentes aos do REAA |
| 34º ao 66º | Hermética | Alquimia, cabala, mistérios antigos |
| 67º ao 90º | Mística | Gnose, cosmogonia, teurgia |
| 91º ao 99º | Administrativa | Governo do rito, Grandes Conservadores e Grão-Hierofante |
Os últimos graus não representam "mais poder espiritual", e sim funções de governo — lógica parecida com a que explicamos no grau 33 do REAA.
Regularidade: o ponto mais delicado
Memphis-Mizraim não é reconhecido pelas Grandes Lojas ditas regulares nem, na maioria dos casos, pelas potências brasileiras filiadas ao reconhecimento internacional. Os motivos costumam ser:
- Origem irregular de várias linhagens — o rito se fragmentou em múltiplas obediências ao longo do século XX.
- Admissão de mulheres em diversas jurisdições, o que contraria os landmarks adotados pela Maçonaria regular. Sobre esse critério, veja Maçonaria regular e irregular e os landmarks.
- Caráter esotérico-místico, que se afasta do modelo simbólico e moral predominante nas obediências regulares.
Na prática: um maçom regular que se filia a uma Loja de Memphis-Mizraim pode ser considerado irregular pela sua potência de origem. Antes de qualquer passo, vale entender como funciona a estrutura das obediências brasileiras.

Simbolismo egípcio: por que o Egito?
O século XIX europeu viveu uma verdadeira egiptomania, alimentada pela campanha napoleônica no Egito e pela decifração dos hieróglifos. Os fundadores de Memphis e de Mizraim leram nos mistérios egípcios uma origem remota da iniciação — ideia historicamente frágil, mas simbolicamente poderosa.
Daí vêm elementos característicos: referências a Ísis e Osíris, ao Livro dos Mortos, ao triângulo e ao Delta luminoso, à ave Fênix e à ideia de morte iniciática e renascimento — tema que também aparece, em chave bíblica, na lenda de Hiram Abif e na Câmara de Reflexões.
Memphis-Mizraim no Brasil
Há Lojas e obediências que praticam o rito no país, geralmente ligadas a linhagens europeias e frequentemente mistas (com homens e mulheres) ou femininas. São grupos pequenos, com forte ênfase em estudo e pesquisa esotérica, e normalmente sem intervisitação com as Lojas regulares.
Quem procura o caminho reconhecido internacionalmente deve olhar para as potências tradicionais e para os ritos praticados por elas — assunto que detalhamos em ritos maçônicos no Brasil.
Memphis-Mizraim x REAA: comparação rápida
| Aspecto | Memphis-Mizraim | REAA |
|---|---|---|
| Nº de graus | 99 (ou 97, conforme a escala) | 33 |
| Ênfase | Hermetismo, alquimia, gnose | Moral, filosofia e cavalaria |
| Origem | França/Itália, séc. XIX | França/EUA, séc. XVIII-XIX |
| Regularidade | Não reconhecido pelas potências regulares | Amplamente reconhecido |
| Admissão de mulheres | Comum em várias jurisdições | Não, na Maçonaria regular |
Vale a pena estudar o rito?
Como objeto de estudo, sim: Memphis-Mizraim é uma janela para a história do esoterismo ocidental e ajuda a entender como a Maçonaria dialogou com o hermetismo. Como caminho de filiação, exige clareza: quem busca reconhecimento internacional, visitação ampla e vínculo com as potências tradicionais precisa saber que este rito segue por fora desse circuito.
Se você ainda está avaliando o primeiro passo, comece pelos fundamentos: o que acontece na iniciação e as Três Grandes Luzes.
