O Livro da Lei — em inglês Volume of the Sacred Law (VSL) — é o livro aberto sobre o altar de toda Loja regular em trabalho. Junto com o esquadro e o compasso, ele forma as Três Grandes Luzes da Maçonaria. Sem ele aberto, a Loja não é considerada "justa e perfeita".
A literatura maçônica de língua inglesa discute o tema com muito mais profundidade do que a brasileira. Este artigo traduz e adapta essa discussão para o contexto do Brasil.
O que é o Volume da Lei Sagrada
A expressão Volume of the Sacred Law nasce no mundo anglo-saxão para nomear, de forma abrangente, o livro sagrado que cada Loja coloca sobre o altar. Antes disso, em países cristãos, falava-se simplesmente na Bíblia.
O termo se consolida a partir das Constituições de Anderson, de 1723, que abrem a Maçonaria a homens de qualquer religião que creiam num princípio criador. Se a Ordem aceita judeus, muçulmanos, hindus e cristãos, o livro do altar não poderia ser sempre o mesmo — daí a fórmula neutra "Volume da Lei Sagrada".

Por que o livro fica aberto
O livro aberto é regra ritualística, não decoração. Ele simboliza:
- A revelação da vontade divina ao homem, seja qual for a tradição do iniciado;
- A régua moral pela qual o maçom deve medir sua conduta, assim como o esquadro mede a pedra;
- A base do compromisso, já que todo juramento é prestado sobre ele.
Quando os trabalhos são encerrados, o livro é fechado — sinal de que a Loja deixou de existir como espaço sagrado até a próxima sessão.
Um livro para cada tradição
Nas jurisdições anglo-americanas, o candidato escolhe o livro sobre o qual prestará seu compromisso, de acordo com sua fé. Em Lojas com membros de religiões diferentes, é comum encontrar mais de um volume exposto ao mesmo tempo.
| Tradição | Volume usado |
|---|---|
| Cristã | Bíblia (Antigo e Novo Testamento) |
| Judaica | Tanakh / Torá |
| Islâmica | Alcorão |
| Hindu | Vedas ou Bhagavad Gita |
| Sikh | Guru Granth Sahib |
| Parse | Zend-Avesta |

Na chamada Maçonaria continental — de tradição francesa e liberal —, algumas Obediências substituem o livro sagrado pela Constituição maçônica ou por um livro de páginas em branco, entendido como o "livro ainda por escrever" pela consciência de cada um. Esse é um dos pontos que separam a Maçonaria regular da irregular; o tema é detalhado em Maçonaria regular e irregular.
No Brasil: o que se usa na prática
A esmagadora maioria das Lojas brasileiras trabalha com a Bíblia sobre o altar, geralmente aberta no Evangelho de João, capítulo 1, ou no capítulo 6 do Primeiro Livro dos Reis, que trata da construção do Templo de Salomão. Em Lojas do Rito Escocês Antigo e Aceito, a página aberta muda conforme o grau em que a Loja trabalha.
Isso não faz da Maçonaria uma religião. O livro está no altar como símbolo de uma lei moral superior, não como objeto de culto — assunto tratado em Maçonaria e religião.
O juramento sobre o livro
O compromisso do iniciado é prestado com a mão sobre o Volume da Lei Sagrada, tendo o esquadro e o compasso dispostos sobre as páginas de forma diferente em cada grau. Essa disposição indica visualmente o grau em que a Loja trabalha, como se explica em Simbolismo do esquadro e compasso e em Juramento maçônico.

O ponto essencial, repetido pelos autores ingleses, é que o juramento vale porque o candidato o presta sobre aquilo que ele próprio considera sagrado. Um compromisso feito sobre um livro em que o iniciado não crê seria, moralmente, vazio.
Curiosidades da tradição anglo-americana
- Bíblia de posse de George Washington: usada em sua posse como presidente em 1789, pertence à Loja St. Johns nº 1, de Nova York, e já serviu em outras posses presidenciais dos Estados Unidos.
- Bíblias de Loja centenárias: em muitas Lojas inglesas, o mesmo exemplar atravessa gerações e registra nomes de iniciados em suas páginas iniciais.
- Mais de um volume no altar: em Lojas militares britânicas com membros de várias fés, é comum ver três ou quatro livros expostos simultaneamente.
Como tratar o livro
A etiqueta maçônica pede cuidado material com o volume: ele não é apoiado no chão, não recebe objetos por cima além dos instrumentos rituais e é guardado com o mesmo zelo dedicado às joias e paramentos da Loja. Em muitas Lojas, abrir e fechar o livro é tarefa ritual atribuída a um oficial específico, conforme descrito em Cargos maçônicos.
Resumo
O Livro da Lei é o centro simbólico do altar: expressa que existe uma lei moral acima da vontade individual e que o compromisso do maçom é feito diante daquilo que ele reconhece como sagrado. A fórmula "Volume da Lei Sagrada", herdada da tradição inglesa, é o que permite que homens de fés diferentes trabalhem lado a lado sem que ninguém precise abrir mão da sua crença.