Poucos temas da Maçonaria despertam tanta curiosidade quanto os três companheiros que, segundo a lenda do terceiro grau, conspiraram contra Hiram Abif. Na literatura maçônica de língua inglesa eles aparecem como the Three Ruffians — Jubela, Jubelo e Jubelum — e há séculos de discussão sobre quem foram, o que representam e por que a Maçonaria escolheu contar essa história. A compreensão do papel dos três rufiões maçonaria é fundamental para entender um dos pilares do Grau de Mestre. Este artigo reúne o que os rituais e os comentaristas clássicos dizem sobre os três rufiões, o significado simbólico de cada um e o motivo pelo qual a lenda continua sendo o centro do grau de Mestre.

Quem são os três rufiões da lenda hirâmica

A lenda narrada na Câmara do Meio conta que três companheiros de ofício, impacientes por receber os segredos do grau de Mestre antes de merecê-los, decidiram arrancá-los à força de Hiram Abif, o arquiteto do Templo de Salomão.

Originalmente eram quinze conspiradores. Doze se arrependeram e denunciaram o plano. Restaram três, que se postaram cada um em uma das portas do Templo — Sul, Oeste e Leste — para interceptar o arquiteto quando ele saísse de suas orações do meio-dia.

Três portas do Templo de Salomão em gravura antiga

Os nomes Jubela, Jubelo e Jubelum não aparecem na Bíblia. Surgem nos rituais do século XVIII e provavelmente derivam de Jubal e Tubalcaim, personagens de Gênesis ligados às artes e à metalurgia. Alguns rituais brasileiros e franceses os chamam simplesmente de "os três maus companheiros" ou usam nomes alternativos, o que mostra que o essencial nunca foram os nomes, e sim o que cada um representa.

As três agressões e seus instrumentos

Cada rufião ataca com uma ferramenta diferente, e cada ferramenta é uma das que o obreiro usa legitimamente no canteiro. A perversão é justamente essa: o instrumento do trabalho vira arma. A simbologia dos instrumentos é crucial para entender o papel dos três rufiões na Maçonaria.

RufiãoPorta do TemploInstrumentoGolpe
JubelaSulRégua de vinte e quatro polegadasGarganta
JubeloOesteEsquadroPeito
JubelumLesteMalho (maço de pedreiro)Fronte

A sequência não é acidental. A régua de vinte e quatro polegadas mede o tempo e atinge a garganta, órgão da palavra. O esquadro mede a retidão e atinge o coração, sede dos afetos. O malho, ferramenta que desbasta a pedra bruta, atinge a cabeça, sede da razão. Palavra, coração e mente: as três faculdades pelas quais o maçom deveria construir são exatamente as três que a ambição destrói.

Malho e ramo de acácia sobre pedra bruta

O que os três rufiões simbolizam

A leitura mais difundida entre os comentaristas — de Albert Mackey a autores brasileiros contemporâneos — é que os três rufiões não são pessoas históricas, mas os vícios que habitam cada obreiro. Entender essa interpretação é fundamental para a autoanálise do Maçom:

  • Ignorância, que ataca pela palavra mal usada;
  • Fanatismo, que ataca o coração e o fecha ao diferente;
  • Ambição, que ataca a razão e busca o grau sem o mérito.

Nessa chave, a lenda deixa de ser um crime cometido por terceiros e passa a ser um espelho. O candidato que representa Hiram no ritual é, ao mesmo tempo, a vítima e o portador dos três vícios. Vencer os rufiões é um trabalho interno, não uma vingança.

Há também uma leitura histórica: a lenda expressa a resistência dos antigos mestres de ofício a entregar os segredos técnicos — os "salários" do grau — a quem não completou o tempo de aprendizado. O tema do aumento de salário e da progressão por mérito atravessa toda a Maçonaria simbólica.

Por que a lenda encerra com a acácia

Depois do crime, os rufiões escondem o corpo e marcam o local com um ramo de acácia. É esse ramo que denuncia a sepultura e permite a busca. A acácia tornou-se, por isso, o emblema maçônico da imortalidade: o que a violência tenta enterrar volta à superfície pela própria natureza.

A conclusão da lenda também é significativa. Os rufiões são encontrados e punidos, mas o segredo que buscavam se perdeu com o mestre — é a Palavra Perdida, que a Maçonaria substitui por uma palavra provisória. A mensagem é direta: nada se conquista à força; o que se toma pela violência deixa de existir no mesmo instante.

Como o tema aparece nos rituais brasileiros

Nem todos os ritos praticados no Brasil nomeiam os três agressores. No Rito Escocês Antigo e Aceito eles costumam ser tratados como maus companheiros sem nome próprio. No Rito de York, a nomenclatura Jubela, Jubelo e Jubelum é mais frequente, por influência direta dos monitores norte-americanos de Thomas Smith Webb.

Essa diferença explica por que um maçom pode ouvir a mesma lenda com detalhes distintos conforme a Loja. As diferenças entre o Rito de York e o REAA se manifestam justamente nesse tipo de detalhe ritualístico, sem alterar o núcleo moral do grau.

A Perseguição e a Retribuição

A lenda dos três rufiões maçonaria não se encerra com a morte de Hiram Abif. A narrativa continua com a busca incansável pelos agressores, guiada pela convicção de que a justiça deve prevalecer e que nenhum crime pode permanecer impune. Os doze companheiros que inicialmente conspiraram, mas se arrependeram, desempenham um papel crucial ao revelar a existência da trama, embora não os nomes dos executores. É a descoberta do ramo de acácia que leva à localização do corpo de Hiram, e posteriormente, à identificação e captura dos assassinos.

A retribuição aos rufiões não é apresentada como um ato de vingança selvagem, mas sim como a restauração da ordem e da justiça. Os detalhes rituais variam entre os ritos, mas a essência é a mesma: os agressores recebem a punição por seus atos. Este segmento da lenda reforça a importância da lei moral e da responsabilidade individual dentro da Maçonaria, mostrando que as ações impensadas e motivadas pela ambição e impaciência resultam em consequências severas, tanto para o indivíduo quanto para a comunidade.

O Impacto da Lenda no Grau de Mestre

A lenda dos três rufiões e a trágica morte de Hiram Abif são o cerne do Grau de Mestre Maçom. Elas servem como uma poderosa alegoria sobre a vida, a morte, a ressurreição simbólica e a busca pela verdade e pela imortalidade. Ao vivenciar o ritual do Terceiro Grau, o maçom é convidado a refletir profundamente sobre a fragilidade da vida, a inevitabilidade da morte, mas, acima de tudo, sobre a capacidade de superar os vícios e de reconstruir o que foi perdido. O Mestre Maçom é aquele que, através da experiência simbólica, renasce para uma nova compreensão dos mistérios da vida e do ofício.

Essa lenda não é apenas uma história, mas uma jornada iniciática que visa aprofundar o compromisso do maçom com os princípios de moralidade, ética e busca pelo conhecimento. Ela ensina que os verdadeiros segredos não podem ser roubados ou forçados, mas devem ser conquistados através do mérito, do estudo e do trabalho contínuo. A figura de Hiram Abif, mesmo em sua morte, torna-se um modelo de integridade e fidelidade aos seus compromissos, inspirando os Maçons a persistirem em seus propósitos e a defenderem a verdade, mesmo diante das maiores adversidades.

O que levar da lenda

Os três rufiões são a parte mais dramática do terceiro grau, mas não são o ponto de chegada. O que o ritual pede ao novo Mestre é que reconheça em si mesmo a ignorância, o fanatismo e a ambição — e que trabalhe, com as mesmas ferramentas que os rufiões perverteram, para transformá-los em palavra justa, coração aberto e razão disciplinada.

Para aprofundar, vale ler sobre os Cinco Pontos de Contato, que encerram o grau, e sobre a coluna partida e a Virgem Chorosa, o monumento erguido em memória do arquiteto.